Lupas que não me deixam enxergar!

Contraditório e real, o título se refere ao transtorno dismórfico corporal.Antigamente denominado “dismorfofobia”, originado da palavra grega dysmorfia que significa feiúra, e se relaciona principalmente com o rosto.(Phillips, 1996)

Consiste na preocupação com um defeito imaginário na aparência, ou na exarcebação de uma pequena falha. Em ambos os casos, a preocupação implica em pensamentos e comportamentos obsessivos. Sendo grande fonte de angústia e baixa auto-estima, causando comprometimento das atividades diárias (estudo, trabalho, lazer), isolamento e, resultando, até em tentativas de suicídio (em 25% dos casos segundo estudo de Phillips e Diaz, 1997).

Os comportamentos típicos são: checagem excessiva ao espelho (e qualquer superfície refletora) ou evitação do mesmo, tentativa de camuflagem do suposto “defeito”, comparações e toques de partes do corpo, “preparo” exagerado da aparência e danos corporais.

Não há diferença de incidência entre homens e mulheres, e a idade predominante estáno período da adolescência. O transtorno pode ser acompanhado de quadros de depressão, fobial social, abuso de substâncias e distúrbios psicóticos.

O discernimento, normalmente, é bastante comprometido em pacientes com transtorno dismórfico corporal. Além do auto-relato, a Yale-Brown Obsessive Compulsive Scale Modified for Body Dysmorphic Disorder(Y-BOCS-BDD) pode avaliar a gravidade dos sintomas do transtorno mental. Os seus questionamentos implicam em : tempo gasto,  grau de interferência, angústia, resistência e nível de controle dos pensamentos e comportamentos obsessivos. Seguidos da avaliação do grau de compreensão do quadro, nível de comprometimento das atividades diárias e relacionamentos. E por fim, o grau de severidade e a perspectiva de melhora.

De acordo com Phillips, autora do livro “The Broken Mirror”,1996 (O Espelho Quebrado), só nos EUA estima-se que de três a cinco milhões de pessoas sofram com o transtorno. Elas estão por toda parte em uma busca incansável por consultas médicas e procedimentos estéticos como cirurgias plásticas.

Como dito no início do texto, o foco de atenção mais comum é o rosto e partes relacionadas como: cabelo, pele e nariz. Porém, há exceções e neste quesito há diferença entre homens e mulheres. Os homens tendem a se preocupar mais com os genitais, altura, quantidade de pêlo no corpo, cabelo ralo e fisioculturismo. Nas mulheres, a preocupação pode estar mais ligada aos seios, pernas, quadril e peso.

As comorbidades também parecem apresentar diferenças entre os sexos. Os homens tendem a apresentar bipolaridade e abuso /dependência de bebida alcoolica. Já as mulheres apresentam transtorno do pânico e bulimia. E estão mais envolvidas em processos de camuflagem com maquiagem.

As causas apontadas são de origem neurobiológica, sócio-culturais (pacientes com transtorno dismórfico corporal parecem ter maior sensibilidade estética) e ambientais (histórico de abuso sexual ou moral).

Ainda de acordo com  Phillips (“The Broken Mirror”, 1996), 37% dos pacientes com diagnóstico de transtorno dismórfico corporal possuem preocupação com uma parte específica do corpo, que pode mudar ao longo do tempo. Em contraposição, 21% vêem a fonte de preocupação desaparecer quando outra vira o novo alvo. Em suma, a preocupação com a aparência tanto pode envolver uma região específica do corpo, como várias. Ou, ainda manifestar-se de forma vaga, como uma sensação generalizada de feiura, em casos mais graves (Tese de doutorado de Maria José Azevedo de Brito, UNIFESP 2010).

O melhor tratamento até o momento inclui medicação (em especial, inibidores de recaptação de serotonina) e terapia cognitivo-comportamental. Em alguns casos, antipsicóticos são necessários quando há presença de delírio.

A terapia cognitivo-comportamental atua na distorção de crenças. Alguma crenças comuns são: pensamento de tudo ou nada, tentativa de ler o pensamento alheio, aparência ligada aos próprios sentimentos, descarte das características positivas, pensamentos catástróficos, comparações irreais e tendência a levar as questões para o lado pessoal.

A terapia em grupo também é bem-vinda, uma vez que é uma rede de suporte de pessoas que a apresentam a mesma problemática, ajuda no combate da vergonha e do isolamento, encoraja o início da terapia individual, e é uma oportunidade de “modelagem” (quando positiva, obviamente).

Enfim, a lupa essencialmente utilizada para apurar a visão, está de certa forma instalada nos pacientes que possuem o transtorno dismórfico corporal da forma mais negativa possível. A imagem distorcida ou “cria” defeitos ou aumenta o mínimo em números de “zoom” proporcionais ao terror sentido por quem experencia a sua imagem refletida!

3 thoughts on “Lupas que não me deixam enxergar!

  1. Pingback: I Curso de transtorno dismórfico corporal | MARJORIE VICENTE – BLOG

  2. Amanda Marques says:

    E como agente consegue separar o que agente realmente é, do que agente vê? …porque é um pouco difícil acreditar nas pessoas, elas podem mentir, então seria mais fácil acreditar no espelho, só que se temos nos olhos uma “lupa que não nos deixa enxergar” também não da pra acreditar muito, e ai? =S …As vezes eu acho que a minha aparência é totalmente ligada as meus sentimentos e isso é ruim. Ótimo texto =)

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