A boca fala o que do coração está cheio…

Aposto que você já ouviu algo como: “Quando a boca cala, o corpo fala. Quando a boca fala, o corpo sara”, não? Muito mais do que uma rima bonitinha, esta é uma das verdades mais importantes já ditas e que pode muito mais do que remediar, prevenir muitas patologias.

Estamos acostumados a seguir regras pré-determinadas, convenções, etiquetas, certos e errados que dificilmente questionamos. E por mais contraditório que possa parecer, de repente nos deparamos com uma baita crise, que acaba sendo a grande mola propulsora da mudança e do caminho de volta para nós mesmos.

Alguns psiquiatras causaram alvoroço ao afirmarem o “lado positivo” da depressão. Independente do lado que estamos nesta discussão, eu acredito que sempre que estamos com uma sensação de angústia, tristeza… ou quem sabe uma ansiedade exagerada, devemos parar e pensar o que em nossa vida pode estar contribuindo para isto.

Quem sabe o seu emprego não te traz satisfação, ou você insiste em uma relação já desgastada e fadada ao término, você pode ter deixado os amigos de lado e esquecido o leve e o colorido da vida… as hipóteses são tantas, e SÓ você tem a resposta certa.

Desde pequenos, muitas vezes, temos os nossos sentimentos “invalidados” e vamos deixando de acreditar no que sentimos e na importância deste autoconhecimento. Quer um exemplo? Quando uma criança cai, o que 99% dos pais tendem a falar??? Isto mesmo, “não foi nada”. De fato, os pais estão buscando o melhor para o filho, não querem vê-lo chorar e nem ter medo de arriscar a próxima vez, mas acabam o deixando confuso já que estes sentem dor, tristeza ou frustração e escutam “não foi nada”. Não estou defendendo que o ideal são “tempestades em copos d’agua”, muito pelo contrário, mas podemos achar um meio termo.
Ainda nesta linha de racioncínio, agora eu quero chamar a atenção de vocês para patologias sérias, estou falando dos transtornos alimentares, dentre eles, temos na anorexia a maior taxa de mortalidade de doenças psiquiátricas. Provavelmente vocês já saibam as características principais tanto da anorexia quando da bulimia, mas, talvez não tenham parado para pensar “psicologicamente” sobre a doença. Darei um panorama geral e entraremos neste ponto especificamente.

Características Principais da Anorexia:
– Alterações do pensamento: medo mórbido de engordar, distorção da imagem corporal, negação do risco da doença
– Baixo peso corporal (IMC menor ou igual a 17,5 e/ou menos de 85% do peso esperado para idade e altura)
– Amenorréia nas meninas (3 meses consecutivos) / perda da libido em meninos

Temos dois tipos de anorexia: uma que denominamos de restritiva, ou seja, a pessoa começa a radicalizar e cortar praticamente todos os tipos de alimentos calóricos e outra que denominamos de bulímica, onde ela busca o emagrecimento através de vômitos provocados, uso e abuso de laxativos e diuréticos.

Característiscas Principais da Bulimia:
– episódios recorrentes de compulsão alimentar;
– tentativas de evitar possível ganho de peso através de métodos compensatórios: períodos de jejum, exercícios excessivos, e/ou purgativos: indução de vômitos após os episódios e/ou uso de laxantes;
– auto-estima totalmente vulnerável ao peso.

Dadas as principais características dos transtornos alimentares mais conhecidos, convido, você leitor, a questionar o que o corpo parece expressar nestes transtornos e que a boca está incapacitada de verbalizar.

Alguns estudiosos da área defendem uma “fobia” em relação a adolescência e a maturidade sexual que a mesma acompanha, então, os adolescentes (fase típica em que a Anorexia aparece) acabam “impedindo” que o corpo se transforme, mantém o aspecto corporal da infância devido a desnutrição, no caso das meninas a menstruação é suspensa, as deixando isentas da responsabilidade sexual e o paciente fica totalmente vulnerável ao cuidado alheio, retornando ao estágio de total dependência dos pais e/ ou cuidadores.

Outra razão apontada seria exatamente oposta ao estado que a Anorexia “impõe” a sua vítima. Ou seja, a busca por independência, autonomia e pelo controle da sua própria vida, mesmo que isto implique em decidir ao menos o que comer ou não. Tal busca tão desejada e a busca por privacidade acaba por contribuir para que a doença se instale, uma vez que os pais procuram respeitar isto e quando percebem mudanças nos filhos, acabam por descobrir comida escondida embaixo da cama, dentro das gavetas ou escutam vômitos forçados no caso da Bulimia.

Falando em Bulimia, o que será que leva ao impulso voraz da ingestão de grande quantidade de comida em um pequeno espaço de tempo, em um momento de intensa sensação de falta de controle que resulta em muita culpa e busca por comportamentos compensatórios ou purgatórios. Será que há um vazio interno tão grande que precisa ser repleto em poucos segundos? Ou quem sabe, a ansiedade, insegurança ou tristeza não encontrem outra forma de “extravasar”?

É verdade que a Mídia e a Ditadura da Magreza colaboram e muito de forma negativa nesta temática. Mas, por quê algumas pessoas desenvolvem os transtornos e outras parecem mais resilientes? Genética? Ambiente? Algumas descobertas na área da Neuropsicologia mostraram que pacientes anoréxicos tendem a utilizar mais o neurocircuito dorsal-cognitivo, responsável entre outras coisas, pela atenção seletiva e planejamento a longo prazo. O que vai de encontro com o padrão rígido e determinado destes pacientes. Já os pacientes bulímicos, tendem a utilizar mais o neurocircuito ventral-límbico responsável pela identificação e significado emocional de um estímulo (prazer e emoção). O que, por sua vez, vai de encontro a busca por prazer imediato e falta de controle.

Independente da causa, o importante é buscar ajuda o mais breve possível. Por isto, pais e cuidadores de plantão, estejam atentos! É muito importante contribuir para a maturidade dos adolescentes que estão a caminho do mundo adulto, permitindo que eles desenvolvam a sua autonomia e que tenham privacidade. Mas, quando esta luta é em prol de comportamentos alimentares inadequados, o transtorno alimentar sai vitorioso!

O mais difícil é que o transtorno alimentar “usa” as características do seu filho contra ele mesmo. Por exemplo, uma menina extremamente determinada e perfeccionista no desempenho escolar, apresentará as mesmas características ao se impor uma dieta rígida. Já uma outra adolescente impulsiva e “sem limites” irá manter este comportamento nas compulsões. Por isto que é TÃO difícil sair desta, é uma luta contra si mesmo e precisa de ajuda especializada.

O que eu mais posso sugerir é simples e tão ausente hoje em dia: C O N V E R S E com o seu filho. Se permita descobrir quem ele realmente é e o que deseja para a sua vida, quanto mais aceito um indivíduo se sente em uma relação, mais verdadeiro ele será. Muito mais efetivo que “proibir”, é conscientizar e responsabilizar. Fazendo uma analogia, já que estamos falando de alimentação, só quem já foi privado de um pedaço de bolo conhece a voracidade de devorar um bolo inteiro!

Portanto, permita-se ouvir… já que quando a boca fala…

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